Jovens recorrem ao EJA como forma de completar os estudos

Estilo de ensino também ajuda a recuperar a autoestima dos estudantes

POR Almeno Campos

Muitos jovens acabam abandonando os estudos por algumas razões: aulas não atrativas, falta de motivação, problemas pessoais, entre outros motivos. Porém, o tempo passa e muitos deles têm o desejo de retornar a estudar, e uma das alternativas é a Educação Básica para Jovens e Adultos (EJA).

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O baixo investimento na educação: as consequências para os jovens

O Brasil sofre historicamente com uma educação de baixa qualidade. Isso é consequência do fraco investimento no setor.  Hoje, o país investe 6,6% do PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma de todas as riquezas produzidas no país) na educação. O índice já supera a média de 5,6% apurada em 2011 – dado mais recente – entre os integrantes da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), formada, em sua maioria, por nações ricas. A parcela de sua renda reservada ao setor é superior, por exemplo, à reservada pelos Estados Unidos. O objetivo do Plano Nacional de Educação (PNE) é, até 2024, chegar ao investimento na área em 10% do PIB.

Com um investimento melhor na educação seria possível equipar melhor as salas de aula e trazer mais tecnologia aos alunos e melhorar a qualidade de educação de crianças, jovens e adultos do ensino do estado do Rio de Janeiro. Como consequência, os estudantes teriam uma motivação maior para estudar. E a falta de estímulo é um dos problemas que fazem muitos jovens abandonarem os estudos.

Segundo dados do Instituto Unibanco, feito com base nos últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos deixaram a escola sem concluir os estudos, dos quais 52% não terminaram sequer o ensino fundamental. De acordo com esse estudo, há outras razões que levam ao abandono, como a baixa qualidade do ensino e o currículo, especialmente no ensino médio, enciclopédico e com pouca flexibilidade para escolhas.

EJA: Solução para continuar os estudos

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Muitas pessoas que pararam de frequentar as escolas voltam às salas de aula para concluir os estudos e a Educação Básica para Jovens e Adultos (EJA) é um dos caminhos para aqueles que desejam voltar a estudar. A EJA é destinada para jovens que não puderam concluir seus estudos. Sua proposta educacional, para muitos, supera o modelo escolar convencional, proporcionando um ambiente de aprendizado que estimula a autonomia. Mas muitos que chegam ao EJA com a confiança e baixa auto- estima, como explica Adriana Cerqueira Baptista, professora do Centro de Jovens e Adultos de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

– Muitos vêm com baixa autoestima, desanimados. O nosso objetivo maior é conversar, levantar a autoestima, trabalhar o lado emocional, dar apoio e incentivá-los a concluir o curso. – disse Adriana.

Uma das marcas registradas do EJA é recuperar o estímulo dos estudantes. Isso já é alcançado, deixando os professores felizes por executar o seu papel, como destaca Adriana.

– A nossa grande alegria em trabalhar com esses jovens é porque, diferente das escolas estaduais ou particulares, eles vêm com muito carinho para a gente, com vontade de aprender, de conseguir alcançar os seus objetivos. Por mais que estejam desanimados, eles se encontram fortalecidos com as nossas palavras e vencem, conseguem superar dificuldades e alcançar as suas etapas.

Deficiência na formação continuada de professores

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A deficiência na formação continuada dos professores é outro grande problema na educação brasileira. Ela é importante pois, a partir dela, os docentes poderão melhorar sua prática docente e seu conhecimento profissional, porém, é importante ter também muito conhecimento sobre o mundo. Essa carência na formação acaba prejudicando na formação do profissional. Como consequência, o docente não passa bem os conteúdos e, assim, desestimulando os jovens a estudar.

– Esse conhecimento (sobre o mundo) tem como relação o conhecimento que o docente tem sobre tudo o que se passa ao seu redor, porque a trajetória profissional do professor só terá sentido completo se estiver relacionada a sua vida pessoal, e na interação com o próximo, já que o professor tem como dever passar aos alunos uma reflexão crítica sobre, por exemplo, os problemas da nossa sociedade – comenta a psicóloga Stelamari Baptista, que também foi professora durante 20 anos da rede estadual e municipal de ensino do estado do Rio.

Porém, a formação continuada está passando por problemas. De acordo com o estudo “Formação continuada de professores no Brasil”, feito pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com The Boston Consulting Group, consultoria multinacional de gestão empresarial, divulgado em 2014, mais de 70% das atividades de formação continuada de professores no Brasil têm baixa eficácia e aplicabilidade, deixando o docente desmotivado e sem tempo para continuar com os estudos.

Mais de 70% dos profissionais consultados na pesquisa disseram que as atividades oferecidas em sua escola são de caráter coletivo e “fora da sala de aula”, como acesso ao material didático, reuniões pedagógicas e participação em eventos. Para os pesquisadores do projeto, esse enfoque em práticas conjuntas e mais distantes do cotidiano escolar resulta em iniciativas de baixo impacto na melhoria do ensino.

– É necessário que o Ministério da Educação invista mais na formação continuada. Ela é uma das bases para um ensino de qualidade. Se essa melhora não acontecer, como é que a nossa educação vai melhorar? – questiona Stelamari.